
Já falei que ser boazinha cansa? E que ser legal, também? É. Ainda mais quando não reconhecem os seus esforços, quando você se desdobra e pensa estar no caminho do bem, no rumo certo e não: não valeu de nada. Não adiantou. Se sentir impotente, diante de tanto pedido de perfeição aos quais você realmente não se enquadra, é inevitável. E como reagir à tudo isso? Se trancando no quarto, e fazendo greve de fome. Belo feito, não? Foi o melhor que consegui.
Tem que dar o exemplo.Deixa ainda no ar algo de que você "poderia", caso não quisesse, não dar exemplo nenhum.
Não pode gritar no gol da Holanda, e muito menos festejar. É quase uma obrigação gostar de alguma coisa que agrada a maioria. E a minha personalidade, aonde fica? Ah, escondida. Secreta. Não pode arrotar o a-e-i-o-u, e muito menos, falar palavrão. Rir do parentes bizarros, é pecado. Buceta, porra, caralho e filha da puta, que é isso? E os modos, menina? É, você tem que ser perfeita. Estudar, e não pegar nenhuma recuperação. Se vestir, e não exalar sensualidade. Exprimir opinião apenas quando pedido. Colocar e tirar a mesa, ou então, lavar a louça. Levar o cachorro para passear, e não esquecer de trancá-lo depois. Gritar? Nunca. Respoder? Castigo. O exemplo, esse bandido, apenas atrapalha a minha vida. Perfeição nunca foi ideal meu. Gosto de me esbanjar na vida, seguir minhas vontades, deixar o coração comandar. Falar o que vem à mente, comer apenas o que gosto - e sim, sou distraída aos montes. Quem se importa mesmo se por dentro você anda se sentindo perdida, se por fora o que você vê no espelho e um lixo, ou se, você anda precisando conversar? Faça o que tem de ser feito, com maestria e perfeição, para receber um sorriso. Algumas palavras. E ah, esqueça que você tem dezessete anos, e também que será jovem por apenas pouco tempo mais. Há muito a ser feito, e seu papel é ajudar! Parece que voltamos ao início do século XX - pelo menos, na minha casa.
Mesmo com tantos elogios de conhecidos, de como existe maturidade nessa menina, de como ela tem juízo, de como é bom tem uma filha assim, que faça tudo e se desdobre pela família, não agrado. Parece que tenho que ser perfeita. Per-fei-ti-nha (e esquecer o "complicada", na lata do lixo). Não sou. E me cansa fingir ser. Faço o que posso, e não reconhecem. Ainda pedem mais. Querem muito mais! Que eu me contente com tudo o que tenho. Que arrume meu guarda-roupa todinho, e ainda, escreva ainda melhor. Que não esqueça a toalha molhada em cima da cama, ou as roupas sujas no banheiro e a bolsa, na sala. Pressão não adianta nada não, senhores pais. Sou carinhosa e amiga das crianças, não tá de bom tamanho já? Não. Tem que ser quase uma mãe.
Me pergunto então: e se eu usasse drogas, aparecesse muito de vez em quando em casa, pedisse dinheiro à todo momento, tivesse vários piercings e muitas tatuagens, cabelos coloridos e amigos imprestáveis, será que meus pais dariam valor à tudo o que faço, ao meu empenho algoz, ou ao que pelo menos soa como uma tentativa? Quiçá. Talvez, o que tenha ocorrido, é o que acontece nas melhores famílias: acostumei muito mal meus pais. Penso com alívio, que pelo menos não tenho homem algum ao meu lado, monitorando se minha celulite aumentou, ou meu peso está nas alturas. Pelo menos sou cobrada de uma vez só, e por apenas duas pessoas. E agradeço à Deus, por todo e qualquer defeito, que com certeza de fábrica veio. Sem eles, ninguém notaria minhas qualidades, que são muito mais marcantes e envolventes. Amém!
CAMILA PAIER
Jesus Cristo esta Voltando
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